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“O persistente pensamento no aproveitamento máximo da vida, em todos os sentidos, nos propõe o encontro com desafios muitas vezes desnecessários.
Falta senso crítico sobre o que realmente vale à pena”
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Eis que chega o último trimestre do ano. Reflexões e visões prosaicas à parte há sempre uma incessante busca pelo diferencial entre aquilo que se desejou e o que realmente foi planejado. Com um intuito muito mais intimista do que pragmático é normal uma busca incessante pelo saldo, comumente apresentado como negativo. Seria exagero concluir que este saldo está sempre negativo ?
Acho que não. Sigo uma linha de pensamento muito mais prática e observadora da retórica de nossas próprias histórias pessoais, confrontada com o que o senso comum nos apresenta. Falo em linhas típicas, normais em pessoas comuns como nós, que trabalham , estudam, se desenvolvem, vivem e são por mais das vezes persuadidas, por modelos muito mais subliminares do que reais, a viver intensamente numa busca incondicional do superlativo em todos os sentidos. O persistente pensamento no aproveitamento máximo da vida, em todos os sentidos, que nos propõe o encontro com desafios muitas vezes desnecessários. Sinto que há uma endêmica falta de senso crítico sobre o que realmente vale à pena.
Uma decisão outrora heterodoxa seria a busca do equilíbrio, fato que me desperta lá certa dúvidas quanto a sua sustentabilidade, em face de fundamentos análogos ao fenômeno que refletimos aqui: o viver no superlativo.
Tenho um amigo, laboratório ao céu aberto, que sempre está com o tal “saldo” negativo, seja no plano profissional ou pessoal. Vitima de uma constante tensão causada pela sensação de débito, busca incessantemente uma causa, culpado ou justificativa plausível para suas falências e frustrações nos projeto de vida. Uma sensação constante de estar para trás, ultrapassado. O carro que não comprou, o salário a casa, a nova “rede” de amigos.
Não questiono a busca das realizações com disciplina, planejamento ordem e bom senso. No entanto uma busca constante e descontrolada por realizações fugazes. Há tanto o que jogar fora, lixo conceitual de um meio que nos cobra por um lado e rouba energia de outro, sem promover meios.
Reconheço ser dura a resistência contra este mal, mas há muito no outro lado a nos convencer, seja com argumentos surpreendentes, seja com vitrines de realização que ocultam o caminho e tão pouco o revela como lícito ou não.
Tento resistir a isso, e tenho vencido até então. Não sou único e convivo com poucos admiráveis.
Realização profissional não se limita ao trabalho bem feito, mas está sim representada por aquele que faz a verdadeira diferença. Há limites sutis para este entendimento e nossos gestores geralmente os confundem como atropelos e resultados não qualitativos.
Tenho poucos, porém incríveis exemplos próximos, da realização profissional edificante e salutar, sem o peso da tentativa vazia de convencimento. São poucos os quais precisam ser um exemplo de vida em demais sentidos, que excedem a capacidade de percepção de um líder ou ícone pseudo-construtivo que a mídia ou ambiente corporativo nos apresenta. Não posso aderir a exemplos os quais não me tenham sido submetidos ao crivo da inteligência e da observação próxima.
Realização pessoal é o resultado do natural empenho, descolado naturalmente dos fatores profissionais com a carga de tudo o que apresentei acima, sem que pra isso soe ao fundo apenas como uma necessidade do “parecer” em detrimento do “ser”. Há sempre um derradeiro momento em que o ser prevalecerá.
Espero que o resultado do que expresso seja o aceite do convite à reflexão.
Refletir sobre a maneira qualitativa de empenharmos nossas energias pessoais. Uma visão lúcida das possíveis realizações da vida em sua amplitude, fundamentado pela consciência do possível e necessário opondo-se ao superlativo que nos rouba esta energia transfigurado de exemplo de realização, inexoravelmente inatingível.
Pensem nisso, por um instante que seja.
[Belo Horizonte, Agosto de 2007]